_________________________________________________ _____________________________________________________ Devaneios de Minh' Alma

A última gota de um choro sem lágrima


Ismael estava em sonhos. Acordado e de olhos bem abertos tentando mirar o que está por detrás das nuvens, para lá do horizonte. Estava em sorrisos, soltos e desmedidos. A imaginação deixava-o finalmente rir. Pela primeira vez em sua vida Ismael carregava os seus sonhos e a sua carne e deixava-se transportar para onde o divino o quisesse levar. Para lá da linha que a vista alcança sentia-se como flor em dia inaugural de Primavera. Fresco, tenro, a desabrochar.

Assim se sentia Ismael naquela hora que devia ser de tristeza. Ele que nunca sentira o ardor dos raios de nenhum sol ferir-lhe as vistas. Ele que, até essa data, nunca conhecera o branco das nuvens manchando o azul dos céus, apreciava finamente os sabores das cores e os cheiros dos ventos. Ganhara naquele dia a coragem necessária.

Ismael sempre tivera medo de enxergar o desconhecido. Por tradição, ou deformação de família, habituara-se a não sonhar para além daquilo que as pernas pudessem alcançar. Desde sempre cumpridor dos deveres herdados nunca se atrevera a olhar para lá das próprias pestanas. Maria dos Milagres, sua companheira, a quem amava fielmente desde tenra idade, sempre lhe pedira que contemplasse o mundo à sua volta. Que a olhasse, que lhe notasse as curvas de mulher bem bordada e melhor tratada. Ele sempre recusou. Assim ele poderia apaladar Maria pelos atributos da alma e afastar do corpo o pecado de querer saborear a beleza de outras mulheres.

- Observa então a beleza das montanhas, do céu, do mar, das aves.
Pedia-lhe enternecidamente Maria dos Milagres.
- Não quero.
Insistia Ismael.

Era o modo que ele encontrava de se sentir feliz no lugar que a vida lhe havido destinado. Assim, estaria livre da vontade de partir em busca de outros mundos.

Nesse viver se entrelaçaram durante uma vida. Ele mais em felicidade e ela em maior contenção de desejos. Maria sempre soube ter a virtude de respeitar a herança do marido. Mas como mulher queria sentir nele o fogo do olhar, a chama do desejo provocada pelo rastilho da figura. Queria que ele a olhasse e saboreasse com as vistas.

- Ismael, porque não me olhas com vistas de homem acordado? Como hei-de saber se meus contornos são ao teu gosto? Como hei-de saber se me achas bonita? Questionava-o Maria mais em súplica que em pergunta.
Ismael sempre lhe respondia o mesmo:
- Para mim estás como ontem e igualzinha estarás amanhã e depois.
- Mas parece-te que isso me basta? Que me sustentam o desejo essa meia dúzia de palavras já gastas? Como posso eu saber porque me escolheste? Como posso saber se sou a mais bela que conheceste?
- Maria, foste tu que me escolheste e não eu a ti. Sabes que não conheço diferença entre o feio e o bonito. Sabes ainda que outros desejos não sei ter. Como podes então duvidar que sejas para mim a mais bela?

A esposa fingia-se satisfeita com a resposta e assim se encerrava em temerosos pensamentos. E se o vento a levasse, em primeira escolha, para dentro da boca da terra? Pior ainda, e se lhe roubasse o viver em momento impróprio? Ismael poderia ter ainda garras para romper e suores de paixão para derramar. Iria ele nessa altura deixar-se cultivar e colher por uma outra qualquer? Ismael sempre lhe adivinhava os pensamentos. Quem não vê as imagens do corpo lê melhor as mensagens da alma.

- Maria, assim me conheceste e assim me hás-de levar à cova. Não te apoquentes, para mim serás sempre a mais bela e não hei-de querer outra.

O casamento havia de ser até ao último dia de uma das suas vidas. O altar pedira-lhes juras de amor verdadeiro, na saúde e na doença até que a morte tratasse da separação. Por crenças e vontades assim havia de ser e assim foi. Mais cedo do que esperado, a doença tratou de se intrometer entre aqueles dois viveres que afinal eram um só. Uma doença rara e sem cura experimentada, forte na dor e medonha no avanço. Em menos de sete dias tratou de dar motivo às consumições de Maria dos Milagres. A morte iria levá-la e deixaria ficar Ismael.

Dizem os que viram que, antes do último ai, Maria teve ainda tempo de arder em dor. Via-se nos gestos e no olhar. Diziam que apesar do sofrimento não vertia lágrima nem gemido. Soube-se depois que guardava todas as forças para as vésperas do derradeiro suspiro. Quando Maria sentiu chegar o famigerado momento, chamou Ismael para mais juntinho de si e mais em suspiros que em palavras, sussurrou-lhe:

- Ismael, fica sabendo que de nada me arrependo. Sempre te amei e respeitei e sempre vivi em alegria sendo parte de teu viver. Agora que me vou basta-me ouvir as palavras que sempre te pedi para que morra em felicidade.

Ismael, que lhe lia os pensamentos muito antes que ela os pressentisse, adivinhara já aquele momento e durante a última noite estivera a preparar-se para a ocasião. Maria dos Milagres poderia não ter tempo para um segundo pedido e nem sequer para esperar pela resposta. Ao final de uma vida, a dela, Ismael sentia-se preparado para abrir os olhos e mirar para além das suas próprias pestanas.

Em esforço o fez, um de cada vez, e quase sufocou com a beleza que lhe entrava pelas cavidades ópticas. Maria era ainda mais bonita do que ele pudera imaginar. Maria dos Milagres, ao vê-lo olhando para ela, ao sentir-se observada pelo amor da sua vida, ganhava brilho nos seus próprios olhos e às portas da morte sentia-se a renascer por dentro. Ismael, depois de afastar o sufoco, proferiu então as palavras que ela tanto queria ouvir e que ele por tantas vezes lhe queria ter dito:

- Maria, eu bem te dizia que eras a mais bela. És a mais bonita que alguma vez conheci.

Ela apenas teve forças para se deixar ouvir esta última frase. E agora, acto consumado, o último suspiro a levava para a morte. Nesse momento, já sem dor e mais morta do que nunca, deixou verter a única gota que alguma vez lhe escorrera pela face. Para lá das portas da morte Maria chorou de alegria.

Nessa hora, de olhos bem abertos, Ismael mirava já o que está por detrás das nuvens, para além do horizonte.

Dizem os que viram que Ismael se aproximou do corpo e se deitou a seu lado. Beijou Maria dos Milagres e lembrou-lhe as juras de amor eterno. Depois, em último gesto, deixou-se morrer e partir com ela para onde o divino lhes quisesse levar as almas.

Dizem os que estiveram presentes que os dois partiram juntos e em risos, soltos e desmedidos.

O meu último acordar


Acordei… com a sensação de ter despertado de um sonho que não havia sido dormido por mim. Abri os olhos, olhei em meu redor e senti-me desencontrado de mim próprio. Inspirei fundo, muito fundo e o ar entrou… mas julgo que noutro corpo, não o senti dentro do meu peito.

Acordei… mas numa estranha ausência me pressenti. Baixei o olhar, encontrei a meus pés farrapos de uma qualquer substância que não reconheci. E vi botões, muitos botões. Estavam espalhados pela estrada, por um caminho. Aliás, os botões pareciam ser o próprio caminho, longo, muito longo, a perder de vista.

Acordei… curioso, em dúvida, em perplexidade. Que caminho seria esse e o que faria eu ali!? Que local seria aquele!? Como havia lá chegado!? Mais, seria mesmo eu a marcar presença ali naquele exacto momento!? Talvez fosse um sonho, ou um pesadelo, já nada sabia. Voltei a sentar-me no mesmo banco que me servira de poiso. Voltei a adormecer… e regressei a um sono que não era o meu.

Acordei novamente… desta vez em sobressalto, tivera um sonho. Não, fora um pesadelo. Imaginara que vestia os farrapos que estavam caídos a meus pés, que os prendia uns aos outros com os botões do caminho. Afigurei que os farrapos e os botões eram coisas minhas, corpo e alma respectivamente. Durante o pesadelo caminhava por aquele caminho que afinal, em conluio com o sono, me queria levar de regresso ao início daquela minha viagem, daquela minha fuga instintiva.

Então, acordado e em frenesim, me livrei de todos os farrapos, de todos os botões daquele caminho medonho. Preferi permanecer, deixar-me ficar por ali, embora que perdido, mas numa paz imensa.

Estava acordado… e nesse exacto momento, decidi não mais adormecer… nem voltar ao meu pesadelo.

Deixa-me partir... ou então mata-me

Morre cabrão, solta-me seu maldito, seu demónio. Torna-te defunto, esvai-te e corrói nas tuas próprias entranhas.
Morre cabrão, larga-me. Abandona meu corpo, dá descanso à minha alma. Deixa que me liberte desta insensatez e que saboreie o meu repouso.
Morre cabrão, seu energúmeno, desfaz-te em dejectos e espalha-te pelas chamas flamejantes de todas as fogueiras de todos infernos.
Morre cabrão, abandona-me bicho vadio, deixa que me desate de todos estes nós. Simplesmente isso, apaga-te, desfaz-te, derrete, mistura-te com o nada. Sê o nada.
Cabrão, se não morres nem me deixas ir, deixa que me golpeie nos pulsos, que beba meu sangue e que nele sufoque. Sacia minha sede com o mais fatal de todos os venenos. Mata-me, liberta-me.
Cabrão, se não morres nem me libertas, nem sequer pela minha morte, faz de mim um teu semelhante, tal e qual a tua demoníaca identidade. Fá-lo e lutarei com forças idênticas aquelas com que me dominas.

Vais fazê-lo? Agradeço-te.

Cabrão, agora, depois do acto consumado não me voltes as costas, não agora que temos forças iguais. Agora lutarei contra ti e vencer-te-ei. Irei matar-te e quando o fizer… agradecer-me-ás por te ter libertado.

Uma queda profunda e pesarosa

Tenho sono, muito sono. Tanto que se me entorpecem os sentidos. Sinto-me fatigado, de tal forma exausto que se me adormecem as vontades. Sinto-me oco, tão desmesuradamente repleto de vazio que me perco dentro de mim. Estou inerte, tão ausente de movimento que até o meu próprio sangue custa a esvair-se pelas feridas abertas.

Tenho sono, muito sono. É tanto que não me deixa adormecer. Sinto-me fatigado, de tal forma exausto que me incomoda a minha própria respiração. Sinto-me oco, tão vazio que até a inactividade faz eco dentro de mim. Estou inerte, tão ausente de movimento que se não sentisse tanto sono convencer-me-ia que estou a morrer.

Hoje quis ser como tu

Não foi hoje a primeira vez que te vi mas foi nesta data que percebi ambicionar ser como tu. Talvez te tenha olhado com vistas diferentes ou necessidades distintas, não tenho a certeza, o que realmente importa é que te olhei e quis ser tu. Sossega que não quero roubar-te a identidade, tu tens por certo a tua história de vida, não sei se longa ou curta, e essa ninguém te pode roubar. A minha nunca a achei.
Tens também o teu grupo de amigos, estás rodeada por eles, partes com eles e com eles voltas. A este e a muitos outros lugares. Eu estou quase sozinho e contento-me em olhar-vos e em apreciar os vossos gestos de camaradagem e cumplicidade. Eu também tenho amigos fiéis, dois, o papel e a caneta, mas eles nunca me levam a lugar algum, tenho eu de os carregar se quero companhia. A eles confesso todos os meus pecados e mágoas e também eles são meus cúmplices. Um serve-me de ferramenta para que no outro deixe gravadas as minhas reflexões.
Mas hoje olhei-te e quis ser tu que não usas canetas nem papeis, que não tens eira nem beira, nem desesperos nem consumições. Não tens o que eu tenho e por isso és mais feliz. Gaivota, hoje eu quis deixar de ser eu e partir contigo para onde tu fores. Gaivota, hoje eu quis ser tu, simplesmente para ter asas e poder voar.

Maldita parte de mim

Maldito sejas tu meu viver que me desbastas e me moldas, que me endoideces e me maquinas. Ridículo hábito que me afoga e me endoidece, que me cansa e enfurece, maldito eu, malvado o costume de esperar, maldito hábito de me acostumar, de me deixar estar por cá, deste lado.
Achar-me, encontrar-me, ser eu, ou talvez outro, ter duas formas, uma de cada vez, escolher, metamorfosear-me quando me conviesse. Prazer improvável, fruto proibido.
Que fazer? Mudar? Lutar? Para quê? Contra quem? Contra mim? Contra o mundo? O mundo é grande demais para que eu o consiga vencer. Esperar-me-ia a derrota, o poço, o fundo do mundo.
Contra mim? Não, não é possível, numa batalha deve existir um vencedor e um vencido. Não tenho dois eus, queria ter, mesmo que tivesse não saberia escolher que parte de mim sairia derrotada.
Tem então que ser contra o mundo? Não sei, talvez, sim, luto, perco, derrota certa e pesada passada no meu triste passado, amargurado, esquecido, lembrado, carregado na mente e no corpo marcado.
Agarra-me, puxa-me, ergue-me, do fosso, da fossa, do nojo. Agita-me, grita-me, acorda-me deste sono sonâmbulo, desta apatia amarga. Lança-me, empurra-me, guia-me. Para onde? Não perguntes, não sei sequer onde estou, leva-me apenas, a ti me confio, pega-me pela mão, arrasta-me pelo chão e depois deixa-me lá.
Onde? Não sei, ficarei bem se estiver do outro lado.

Um último olhar, antes do amor eterno

Vai, não hesites, despede-te de vez, de mim, de nós, do lar, antes nosso agora só meu.
Vai, não nos olhes, não me olhes, não queiras ver-me chorar, amargurar, pedir-te que fiques, pedir-te que voltes mesmo antes de partires.
Vai, continua, segue para longe, tão longe quanto o necessário para que a distância te impeça de ouvir os meus lamentos, os meus gritos de dor e de saudade.
Vai para não mais voltares, eu fico, com vida, mas para não mais viver. Segue com as tuas fantasias por cumprir e sonhos por realizar, eu fico com as minhas amarguras de amor.
Vai agora, eu insisto, é melhor assim. Antes longe de ti do que perto e impossibilitado de te amar.
Vai, não tens escolha, sei que precisas que te leve mas não me peças que o faça, há-de chegar o dia que terão de me levar a mim e não vais ser tu quem o vai fazer.
Agora segue, mas antes deixa-me dizer-te que também um dia eu irei morrer, prometo-te, e nesse dia voltaremos a encontrar-nos e recomeçaremos um amor para toda a eternidade.

Contrastes

Perco-me em devaneios, sonho acordado com a imensidão do tempo, com o tormento, com o prazer de cada instante.


Um sentimento de dor me invade, contrasta com o calor do momento. O relógio corre lento enquanto as ondas rebentam na praia.


O olhar perde-se no horizonte, o horizonte perde-se na escuridão, a areia foge da minha mão e eu perco-me em devaneios.

Loucura desenfreada

Fantasias alarmantes
confundidas com realidade,
desprezadas pelo vício,
amantes da obscuridade.


Apaixonantes refúgios,
momentos de glória,
loucuras desenfreadas
que não guardo na memória.


Na imensidão das dúvidas
as incertezas se realçam,
marcam pontos de referência
eue as fantasias não alcançam.
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